Recentemente, o country manager do grupo de serviços online da Microsoft Brasil, Osvaldo Oliveira, completou 18 anos de trabalho na companhia e 16,5 anos ocupando cargos equivalentes ao de diretor. Estagnado? Longe disso. O executivo é um dos exemplos de profissionais da área de tecnologia que conseguiram traçar um modelo de carreira baseado em movimentações horizontais, o que, ao contrário do que aparenta, implica em crescimento contínuo e acelerado.
Ele, como outros profissionais do setor, representa a contrariedade de um conceito difundido por conselheiros de carreira e profissionais de executive search e headhunters, que prega um conceito próprio. De acordo com pesquisas, o executivo que faz uma longa carreira em uma empresa só – e que não seja meteórica até o topo –, acaba ficando com uma imagem negativa. Esta idéia é relativamente nova no mercado. Há algumas décadas, manter-se na mesma empresa era considerado mais adequado profissionalmente.
Essa tese, sem autoria definida, é contrariada pelos profissionais de TI entrevistados nesta reportagem. Eles se preocupam menos com o nome dos cargos que estampam em seus cartões de visita e mais com o aprendizado e experiências que podem acumular ao ocupar determinado posto. Além disso, assim como Oliveira, da Microsoft, Edson Shiwa, vice-presidente do grupo de imagem e impressão da HP e Marco Aurélio Lauria, executivo de vendas de software da IBM, priorizam o seu bem estar pessoal e profissional, mais do que comparações com o desempenho e crescimento de colegas.
A manutenção do nível, acompanhada das mudanças de áreas, também não representam falta de ambição. Quando buscam o aprendizado e novos desafios, eles contam que pensam em sua empregabilidade. “Às vezes você é cotado para muito mais áreas tendo passado por diversos setores do que se tiver crescido rapidamente e só conhecer a realidade de um departamento”, avalia Lauria.
Edson Shiwa, funcionário da HP há mais de 20 anos e hoje vice-presidente da área de imagem e impressões, concorda com Lauria. “Mudar de área é quase como mudar de empresa, em termos de aprendizado”, afirma Shiwa. O executivo, de 42 anos, começou na empresa ainda na faculdade de engenharia, momento em trabalhou em diversas áreas de desenvolvimento. De PCs e suprimentos, passando por Unix, Shiwa teve tantas funções, que sequer consegue contar.
Uma das principais experiências foi uma temporada de quatro anos no México, na época a sede da companhia para a América Latina. Sua ida para outro escritório foi uma guinada, não só do ponto de vista convencional – ele se tornou o responsável pelas áreas de hand helds, notebooks, calculadoras e suprimentos. “O networking e a experiência que adquiri foram fundamentais”, declara.
Na opinião de Francine Mazzafero Graci, diretora do segmento de TI, telecom e infra-estrutura da FESA, empresa de executive search, há o lado positivo e o negativo de seguir esse rumo. O bom é acumular uma experiência rica e assumir diferentes desafios a cada intervalo de tempo, que pode ser em média a cada três anos.
Em contrapartida, o foco em mudanças horizontais pode ser ruim se demorar muito para acontecer e também não é tranquilamente posto em prática em empresas de pequeno porte, que não viabilizam experiências fora do Brasil, não possuem muitas áreas e, por isso, não oferecem boas propostas de desafios.
Segundo ela, apesar de trabalhar em uma companhia de seleção de profissionais, esse modelo de permanecer na mesma empresa pode sim funcionar, desde que o profissional esteja sempre encarando novos projetos e acumulando aprendizados. “Pode parecer um tiro no pé apoiar a idéia de os profissionais ficarem na mesma companhia, já que somos uma empresa de seleção de pessoas, mas é preciso dizer que esse modelo pode sim funcionar em grandes organizações”, afirma.
A principal dica de Francine, no entanto, é de que os executivos assumam os riscos e as responsabilidades por suas carreiras. “Não adianta esperar que o chefe ou a empresa defina seu rumo; o ideal é visualizar aonde quer chegar e buscar esse caminho”, resume.
Foi o que fez Lauria, que está na IBM há 20 anos. Depois da formação e do início de uma carreira técnica, que durou sete anos e resultou em experiências intercaladas dentro e fora do Brasil, o executivo preferiu dar uma guinada e partiu para a área de vendas. Em 1994 virou gerente de marketing para networking. Mas como tinha esse diferencial do conhecimento técnico, realizou movimentações horizontais que implicavam em mais responsabilidades.
Passou a cuidar das vendas de servidores intermediários, depois acumulou as tarefas do cargo na América Latina e, pouco mais adiante, voltou para os Estados Unidos para cuidar de novas contas – sem se preocupar com o nome do cargo, que pouco mudara. “Mas consegui alterar radicalmente minhas tarefas mais uma vez quando passei a lidar com clientes ao assumir o posto de executivo de vendas de cluster industrial”, descreve. Ao todo, Lauria passou por 19 áreas e, desde o começo deste ano ocupa a vaga em vendas de software.
O que considera importante, entretanto, é que nunca ficou mais de dois anos na mesma área, o que não resultou em estabilização. “Recebi sim muitas ofertas para sair da IBM, mas em nenhuma percebi tantas possibilidades de renovação quanto aqui”, conta. Segundo ele, o choque inicial da mudança é grande, até por causa do desafio da produtividade, mas com o tempo você passa a entender as nuances e o estabelecimento de contatos trouxe o benefício da facilidade para lidar bem com as pessoas de qualquer área da empresa e também para assumir novas posições.
Depois de tantas experiências, as possibilidades de carreira se ampliaram e isso dá segurança ao executivo. “Existem pessoas que se preocupam mais com o cargo do que em fazer um trabalho divertido e bem realizado. Eu não. E sei que as empresas também consideram bem pessoas que se preocupam em aprender e que por isso fazem movimentações horizontais”, aposta.
Na mesma linha traçou sua carreira Osvaldo Oliveira, na Microsoft. De acordo com o executivo, o fato de ser a tanto tempo um diretor não significa que a responsabilidade não aumentou, que não teve novos desafios ou mesmo crescimento. “Quando entrei na companhia tinha oito funcionários, hoje são 500 e a linha de produtos também cresceu muito. É claro que tive e tenho muitas coisas novas a fazer”, diz.
Lembre-se
Saiba o que é preciso ter em mente se optar por continuar na mesma empresa e não parecer estagnado
- Avalie se você continua aprendendo e com bastantes desafios na posição em que está
- Busque mudanças de área caso esteja incomodado e não haja vagas para promoções
- Experimente posições na companhia fora do País
- Não se compare com os colegas e se preocupe se eles cresceram mais rápido que você
- Pense sempre na sua empregabilidade; manter o posto e experimentar várias áreas poder ser mais importante do que crescer fulminantemente
Por Luiza Dalmazo, do COMPUTERWORLD
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